Poema de Quarentena

(Elisa Aires Rodrigues de Freitas, 30/06/2020)

Vejo um bebê sendo amamentado.

Vejo uma mãe consolando o choro.

Vejo um pai embalando o berço.

Vejo um menino muito curioso.

Vejo uma moça e os seus amores.

Vejo um homem descobrindo dores.

Vejo uma mulher plantando flores.

Vejo um velho e o seu silêncio.

Ouço os pássaros no entardecer.

Ouço as buzinas dos apressados.

Ouço o vento e a ventania.

Ouço a televisão com suas notícias.

Ouço o sino da catedral.

Saboreio o pão do dia.

Saboreio o suco da fruta colhida.

Saboreio a fome desesperada.

Saboreio a sopa quente em noite fria.

Cheiro a comida na mesa posta.

Cheiro as rosas do vaso da sala.

Cheiro o mofo no guarda-roupa.

Cheiro a fumaça vinda das ruas.

Toco a caneta para fazer palavras.

Toco o telefone para ter companhia.

Toco a folha que está vazia.

Toco as lágrimas do cansaço.

Toco a cortina por onde entra o sol.

Sinto a angústia que circunda todos.

Sinto a coragem que circunda todos.

Sinto o medo que circunda todos.

Sinto a música que circunda todos.

Sinto o olhar perdido que circunda todos.

Sinto a paciência que circunda todos.

Sinto a esperança que circunda todos.

Tudo se repete.

Tudo é novidade.

Tudo é sabido.

Tudo é mistério.

Tudo é concreto

E tudo desaparece.

As janelas fecham, as janelas abrem.

Elisa Aires Rodrigues de Freitas: psicóloga clínica, mestre em psicologia, membro do CEEPU e da diretoria Inova-Ação.

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